Os Dragões do Assassino - Crítica no blogue Ler y Criticar

"Leiam esta saga!" (e a minha crítica podia ser apenas esta frase, porque, sinceramente, nem sei que dizer mais). 
 
Finalmente acabei esta saga, que juntamente com a anterior, nos dá um olhar sobre a vida de Fitz, narrada pelo próprio, num conjunto de dez livros. 
 
Olhando para a qualidade do livro, este não está acima dos restantes, mas será, quase de certeza, o favorito de todos. Em primeiro lugar é preciso dizer que Hobb consegue "fechar" todos os temas, dando respostas e momentos definitivos para tudo, à excepção de um pormenor que, quem sabe, poderá ser a chave para uma nova saga, um dia.
 
Este é, provavelmente, o facto mais bem conseguido deste livro: tudo fica explicado, até as dúvidas em relação à saga anterior, dando a sensação que na realidade são uma única saga, pensada desde o início para acabar neste livro. Em relação ao final, Hobb executa-o de forma diferente. No final da primeira saga, tudo foi muito rápido e isso desagradou alguns leitores. Eu adorei aquele final mas percebi a insatisfação de alguns. Neste, Hobb não repete o "erro". O final da "luta entre o bem e o mal" acaba muito antes do fim do livro, dando espaço ao acalmar da narrativa e à definição de tudo, com calma e sem espaço para dúvidas.
 
Sobre tudo o resto não há muito a dizer. Hobb está como nos habituou: excelentes personagens, momentos de surpresa e coerência, uma escrita lenta e cheia de pormenores, e acima de tudo, muita emoção. Morte, traição, amizade, amor, desespero. Tudo está presente e as decisões serão definitivas. Um livro que não desilude em nenhum momento e que é o final que os fãs há muito pediam, onde a autora demonstra a capacidade de não nos dar algo cor de rosa e que destruísse a coerência daquele mundo.
 
Resta-me acabar esta análise, onde me recuso a mencionar qualquer personagem ou momento (para nada revelar), da mesma foram que comecei: "Leiam esta saga!"
 
Agora um olhar sobre as duas sagas, num texto menos crítico e mais emocional:
 
Há um ano comecei a ler a história de Fitz. Quem me recomendou o "Aprendiz de Assassino" disse-me: "Não vais conseguir parar de ler". Um ano depois, e dez livros lidos (a uma média de 350 páginas, mais ou menos, é muita página), dou-lhe razão. Quando comecei a ler, achei que a saga poderia ter um problema: era narrada por Fitz, logo ele não iria morrer, pois não acreditava que a meio o narrador mudasse. Sendo assim, como poderia eu, leitor, preocupar-me realmente com ele? A resposta, vejo-a agora, é que não preciso, porque eu sofri com esta personagem. Qual o seu segredo? É difícil de explicar, e ainda mais difícil de copiar. Fitz foi uma presença na minha mente durante horas, as longas horas em que li a sua vida. E, acima de tudo, foi honesto. Enquanto narrador, nunca me tentou enganar, nunca escondeu os seus defeitos. Vendo bem, Fitz foi o narrador mais honesto que já li... tratou-me como a um amigo, e ao mostrar-me todos os seus erros, imperfeições, virtudes e momentos de indecisão, tornou-se na personagem mais humana... aquele que cresceu ao contar-me a sua vida.
 
O segredo é mesmo esse: Fitz não é um herói como nós conhecemos. É, principalmente, uma personagem que não tem a vergonha de dizer ao leitor tudo o que fez de mal e sofrer com isso. Claro que parece que o estou a tornar demasiado real, mas pensem bem: quantos narradores foram totalmente honestos com o leitor? Quantos não nos tentaram enganar, esconder coisas até ao fim, para nos surpreender? Aqui nós sempre soubemos o mesmo que ele.  
 
E assim sofri com Fitz. Sofri pelo amor que não teve, pelas torturas que recebeu, pelas mortes à sua volta. E isso é tão difícil um escritor conseguir... aquela capacidade de nos fazer esquecer que estamos a ler e levar-nos, inconscientemente, a acreditar que aquela história existiu, teve amor e sofrimento, e nós sofremos, porque gostamos daqueles personagens que não são mais do que palavras escritas por alguém que nunca iremos conhecer. É essa a magia da leitura: é ver o Fitz a sofrer e esquecermos que estamos no nosso quarto, é achar que ele está à nossa frente a contar-nos a sua vida.

Claro que a saga não é apenas Fitz. A autora criou, desde o início, uma ponte que qualquer leitor atravessa, e que nos leva a gostar também de outras personagens. Castro, talvez o mais incompreendido no início, mas principalmente Veracidade e o Bobo. O Bobo pelo enigma que é, sempre misterioso, Veracidade porque é a imagem paternal que Fitz nunca teve, cheio de moral, justiça e coragem, sempre pronto a sacrificar-se enquanto nos revoltamos com as injustiças que Majestoso cria. Claro que existem outras... acredito que seja impossível não ficar "amigo" de Olhos-de-Noite e principalmente de Obtuso, que adorei. Todos eles desafiam Fitz à sua maneira, levando-o a errar, a admitir o erro e crescer.

Este conjunto de personagens, onde podemos ainda acrescentar Breu, a Rainha, Paciência, etc... é o grande trunfo da saga. Se as personagens fossem menos reais, menos fortes, então o enredo não teria a capacidade de nos prender da mesma forma. E isto nota-se com facilidade. Hobb cria um mundo interessante, dá-lhe diversidade, curiosidades, cultura, e tudo isto com qualidade, mas essa é a parte que iremos esquecer. O que fica é essa empatia, que cada um poderá criar (no meu caso, com Fitz).
 
Esta empatia que criei, outros poderão não sentir. Na literatura, durante os anos em que lemos, vamos assistindo a muitas histórias, conhecemos milhares de personagens. Umas ficam connosco para sempre, outras esquecemos mal o livro acaba. Todos nós ganhamos algo quando lemos um livro, mas por vezes, existe um livro que nos tira algo quando o acabamos. Foi isso que me aconteceu com esta saga: houve algo que perdi quando a acabei, e sente-se um pequeno vazio que apenas os nosso livros favoritos conseguem deixar dentro de nós.
 
A saga de Fitz (e aqui falo dos dez livros) não é a minha favorita nem é a melhor que já li, e o mesmo se passa com Fitz, que não é a minha personagem favorita, nem a melhor que já conheci... mas fez-me vibrar como nenhuma outra. Fez-me rir, fez-me sofrer ou ficar triste. Acima de tudo, fez-me companhia e por isso, estas milhares de palavras que Hobb escreveu, nunca foram apenas uma leitura onde lemos algo. Esta foi partilhada com a personagem, e por isso a leitura, um ato que por vezes é tão solitário, neste caso nunca estive sozinho.
Publicado em 16 Julho 2013

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