Pavana - Crítica no Leituras do Fiacha

Confesso-vos que quando iniciei a leitura deste livro, esperava algo diferente, mas página após página, fui entrando num mundo desconhecido, que me seduziu pelas suas descrições, pelas suas histórias perfeitamente escritas e que se interligam na sua independência.
 
“Pavana” é um mosaico de histórias, um mosaico de vidas e gerações que nos falam de uma Inglaterra completamente diferente daquela que conhecemos hoje. Uma Inglaterra que viu a sua rainha Isabel I assassinada, a queda da reforma protestante e a ascensão da igreja católica que controlava metade do mundo.
 
Em pleno século XX (a história começa em 1968), o desenvolvimento tecnológico é praticamente inexistente, sendo considerada como heresia qualquer tentativa de desenvolvimento de outras tecnologias para além da energia a vapor. A Inquisição está forte e o sistema feudal bem vivo!
 
A primeira história apresenta-nos Lady Margaret (uma locomotiva a vapor) e a família Strange. O negócio de família permite que criar uma grande riqueza, com as suas locomotivas transportam mercadorias para todos os pontos do país.
 
A segunda história dá-nos a conhecer a Guilda dos Sinaleiros através de Rafe Bigland, uma aliança muito forte, uma irmandade que trabalha fora da alçada da igreja,.
 
O irmão John, na terceira história, apresenta-nos um monge que é chamado para um trabalho muito especifico: desenhar o que vê durante o funcionamento interno da inquisição, as torturas, os inquéritos. Estes acontecimentos levam-no a repensar a sua vida e a aliar-se aos rebeldes e ganhar a inimizade com a igreja.

 

Novamente a família Strange, numa outra geração, traz-nos uma quarta história que prepara o terreno para o desenlace final. O sentimento de liberdade de uma jovem é o tema da quinta história e de novo a família Strange preenche os capítulos seguintes até ao final do livro.
 
As personagens são muito humanas, com as suas fragilidades, aspirações, hesitações, dando-nos conta de quão frágil é o ser humano.
 
As histórias podem ser lidas de forma quase independente, ilustrando momentos da vida neste mundo controlado pela igreja. Mas a narração adquire a sua força pela justaposição de situações, personagens e eventos.
 
A comunicação assume um papel importante neste mundo sem progresso, no capítulo dois é escrito em detalhe a estrutura e a gestão das “luzes sinaleiras” , bem como a longa preparação na arte de codificar e descodificar as mensagens que são enviadas e recepcionadas em cada torre. A Irmandade dos sinaleiros, criou as regras e os sinais de um sistema único em que só quem pertence a esta irmandade o pode fazer. Em qualquer mundo desenvolvido, a comunicação é um dos factores chave para esse desenvolvimento e progresso, um fluxo difícil, hermético e subsequentemente controlado de mensagens é o primeiro sinal de uma sociedade que nunca poderá vir a modernizar-se e a evoluir.
 
No entanto, paralelamente, vimos a descobrir que estes “irmãos sinaleiros” têm um outro método para comunicar, muitíssimo mais rápido, através de terra ou mar e que está sem dúvida ligado a outras ciências ocultas, como por exemplo a magia.
 
Surge então um outro mundo paralelo à história central de Pavana, um mundo da antiga religião, o mundo das fadas, “as pessoas pequenas” que vivem nas florestas, mas que surge de uma forma muito subtil, sem que se perceba muito bem qual o papel directo deste seres. São elas a ligação com o feminino, para além da sua ligação à irmandade dos sinaleiros? Serão as mulheres um sinónimo de rebelião? É delas que nasce a força para a mudança?

 

A linguagem é lenta e as descrições são pormenorizadas, criando um ritmo que para alguns poderá ser considerado monótono. Não há acontecimentos surpreendentes e que nos arrebatam no meio da leitura. Keith Roberts escreve num tempo próprio, em que a narrativa aparece imbuída de um certo fatalismo, em que os personagens não parecem donos do seu destino, há uma força na história que os controla e a igreja que controla tudo.
 
No último capítulo “Coda” tudo se resolve, é a reviravolta, o desenlace de todas as outras histórias que estão interligadas quer no tempo quer nos personagens.
 
Não é difícil alongar-me neste comentário sobre Pavana, pois há muito por dizer. No entanto acho que não o devo fazer. É um livro que se descobre em si mesmo, tem de se ler nas entrelinhas e no que está por detrás do enredo principal, pois se não o fizermos, poderemos ter a sensação de estarmos a ler um livro sem nexo e com personagens e histórias que nada tem a ver umas com as outras.
 
Keith Roberts foi, na minha opinião, bastante ambicioso com este livro, no entanto terá conseguido atingir o seu objectivo final? Não sei responder… Para mim, é um livro muito bom, muito bem escrito, de uma forma subtil que despertou todos os meus sentidos na sua leitura, pois tem de se ler o que está na conjugação das palavras e frases e o que não está.
 
Há um toque de magia muito ténue e subtil por detrás de tudo, até na forma como o lemos.
 
Recomendo? – perguntam-me vocês. Também não sei responder… ou seja, eu recomendo, mas sei certamente que muitos acharão uma grande seca! Não esperem grandes acções ou movimentações, leiam-no desprovidos de expectativas e leiam nas entrelinhas, na escrita fantástica de Keith Roberts e gostarão certamente como eu gostei (assim o espero…).
Publicado em 23 Setembro 2014

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