Quando Nietzsche Chorou - Crítica em Planetamarcia

A Roda dos Livros tem-me proporcionado conhecer livros que me tinham passado despercebidos. “Quando Nietzsche Chorou” é mais um exemplo de um livro que, possivelmente até teve uma boa divulgação, mas nessa altura (e não foi assim há tanto tempo) não chegou até mim. As campanhas são cada vez mais curtas, tal é a quantidade de livros a chegar ao mercado diariamente, e este, apesar de já ter várias edições, só foi lido por mim através da estratégia de marketing que continua a ser (acho eu) a mais bem-sucedida: o passa-a-palavra.

É difícil dizer o que mais gostei neste livro, assim como também não sei como o qualificar. Penso que a expressão “Romance de Ideias” é bastante feliz neste caso, pois que são mais de trezentas páginas de um debate ideológico intenso, com o qual facilmente o comum dos mortais se identifica. Apesar da capa e o título remeterem para dissertações filosóficas, ou talvez temas demasiado abstractos para um leitor com conhecimentos médios, este é um livro de emoções e dúvidas com as quais qualquer ser humano se identifica. Desespero, medos, conflitos interiores e traumas do passado. Quem nunca os sentiu pode parar de ler agora e retomar quando os sintomas vierem, que ninguém escapa (mais cedo ou mais tarde).

Os que conhecem a sensação, mesmo que de forma subtil, e apreciem História, debate de ideias e tudo o que mais ponha os neurónios em ponto de ebulição, podem também parar por aqui, desde que comecem imediatamente a ler “Quando Nietzsche Chorou”. Eu ainda não tinha terminado a leitura quando comprei mais três livros do autor. Mas não vale a pena fazerem isto em casa, a não ser que sejam leitores compulsivos, meio loucos, e com muito espaço para arrumar livros. A parte do espaço não me assiste.

A imaginação de Yalom leva-nos ao encontro entre Nietzsche e Breuer, coisa que não aconteceu, mas acontecendo devia ser mais ou menos assim, uma sucessão de conversas brilhantes entre dois génios de ramos distintos do conhecimento, com sucessivas inversões de marcha e reviravoltas no caminho sinuoso do conhecimento. Seres pensantes, à frente do seu tempo que, descobriram (neste livro) que a alma se enche de dores com o tempo e com a vida, e que a conversa exorciza a inquietude da alma doente. Como descobrir a cura para a doença que quebra por dentro? Como sarar as feridas sem sangue das mágoas? Termos como a “limpeza da chaminé” ou “médicos da angústia” são os primeiros passos do que viria a ser a psicanálise, e que vão surgindo numa aprendizagem mútua de dois mestres que podiam muito bem ter construído este caminho na realidade. Assim não foi, Freud faz umas aparições ocasionais para dar realismo à coisa mas não era preciso, pois que para mim os encontros existiram, a amizade nasceu, os papéis inverteram-se, e a humanidade deu vários passos em frente. Gostei tanto que quero que seja tudo real. Recomendo muito.

“- Não sei curar o desespero, doutor Breuer. Limito-me a estudá-lo. O desespero é o preço pago pela auto-consciência. Olhe profundamente para dentro da vida e vai sempre encontrar o desespero.

- Sei disso professor Nietzsche, e não espero uma cura, mas simplesmente um alívio. Quero que me aconselhe. Quero que me mostre como suportar uma vida de desespero.” (Pág. 150)

“-Viva enquanto viver! A morte perde o seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida! Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo.” (Pág.258)

Publicado em 18 Novembro 2014

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