Quem Teme a Morte - Opinião no NdZ

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO QUEM TEME A MORTE

Quem Teme a Morte é um romance pós-apocalíptico da autora nigeriana e americana Nnedi Okorafor, conhecida pelo seu trabalho nos géneros da fantasia, ficção científica e realismo mágico para adultos e crianças. É professora na Universidade de Buffalo, em Nova Iorque, e vive com a sua família em Illinois, EUA. As suas obras incluem Quem Teme a Morte, a trilogia Binti, The Book of Phoenix, a série Akata e Lagoon.

Foi vencedora dos Prémios Hugo, Nebula e World Fantasy Award e este seu romance Quem Teme a Morte tem prevista uma adaptação televisiva pela emissora HBO, com a mão de George R. R. Martin, conforme noticiamos aqui no NDZ. A edição portuguesa da Saída de Emergência é uma das mais recentes apostas da Coleção BANG! com um total de 384 páginas, marcando a primeira publicação em Portugal desta consagrada autora de Ficção Especulativa.

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Leve, despretensioso e envolvente, Quem Teme a Morte é um livro pós-apocalíptico que nos remete às próprias raízes de África. Não fossem as aparições ocasionais de computadores e motas, podia até pensar-se tratar de um mundo passado, tal é a desolação e a mendicância daqueles redutos. Somos atirados de chofre a um mundo de feitiçarias, de enigmas e de morte, com propósitos malignos escondidos a cada recanto.

 

“A história de Onyesonwu é, mais do que uma luta para matar o seu pai, uma luta para mitigar as desigualdades na sociedade fraturada em que cresceu.

Mas apesar de todos esses elementos fantasiosos, não é só sobre fantasia que o livro fala. E atrevo-me a dizer que também não é sobre vingança, embora seja esse o principal móbil da protagonista ao longo do livro. Ele fala sobre relações humanas e sobre confiança, sobre preconceitos e sobre como eles moldam o ser humano. A protagonista, Onyesonwu, é obrigada a fazer escolhas e a encarar de frente a forma como o mundo a discrimina.

Sem título

 

Num Sudão futurista que sobreviveu a um holocausto nuclear, as classes estão divididas entre Nurus e Okekes. Os primeiros são agressivos por natureza, conhecidos como estupradores e seguidores do Grande Livro, que os incita a exterminar a população Okeke. Após um violento confronto em que apenas uma mulher sobreviveu à destruição de uma aldeia, ela é violada por um Nuru. Najirba consegue escapar e sobreviver ao deserto, mas rapidamente descobre estar grávida.

À filha decide chamar Onyesonwu, que significa Quem Teme a Morte numa língua antiga. A rapariga é uma Ewu (nascida da dor), ou seja, mestiça entre Nuru e Okeke, com cabelo e pele da cor da areia, e desde logo todos pressupõem que é o fruto de um estupro. Rapidamente ela se molda à sociedade onde a sua mãe a conduz, aprende os seus ritos e estabelece amizades, mas nem sempre é capaz de agir de sorriso feito perante o preconceito.

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Jwahir é a terra onde elas se fixam e onde somos apresentados a Fadil Ogundimir, o ferreiro do local, e vemos como Onyesonwu contribuiu para que ele a mãe se viessem a casar. Conhecemos também Mwita, que partilha com Onyesonwu a cor da pele e alguns dons “especiais”, muito embora nunca tenha conseguido tornar-se feiticeiro. Vários personagens destacam-se nesta sociedade, como Binta, Diti e Luyu, as amigas de Onyesonwu, Fanasi, o noivo de Diti, Aro, um poderoso feiticeiro ou mesmo Ada, uma anciã.

 

“Somos atirados de chofre a um mundo de feitiçarias, de enigmas e de morte, com propósitos malignos escondidos a cada recanto.

Mas o mistério que mais me envolveu na primeira metade do livro, mais do que as metamorfoses físicas e espirituais da protagonista, foi aquele que apresentou a Casa de Osugbo, um edifício misterioso com vida própria e um significado bem alegórico. O rito de circuncisão das raparigas também foi um bom espelho das tradições seculares de alguns povos que influenciaram esta obra, bem como a aura suave e melodiosa que a autora deu ao livro.

Da metade para a frente conhecemos outros povos e tradições, como o Povo Vermelho, mas acima de tudo assistimos ao desvanecer de relações e à fragmentação que o convívio no deserto deixou nas personagens. A demanda de Onyesonwu pelo seu pai Daib revelou-se uma jornada de vingança pessoal, mas não obstante o cliché do Olho Que Tudo Vê que a perseguiu ao longo do livro, Nnedi Okorafor soube jogar com as emoções do leitor. Desde logo, ao sabermos desde cedo como seria a sua morte.

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A representatividade foi um dos focos da autora ao longo de Quem Teme a Morte, mostrando a maravilhosa protagonista no seu melhor e no seu pior, sempre como um ser humano com defeitos e virtudes e não como uma heroína tradicional. Depois, ao criticar o racismo e o preconceito em todas as suas facetas, jogando ainda com um livro canónico, O Grande Livro, que estimula esses mesmos preconceitos, uma crítica visível aos nossos lugares-comuns religiosos.

Apesar da aura decadente, Quem Teme a Morte fala muito de esperança. E fala de resiliência, de ultrapassar as dificuldades, de enfrentar os estereótipos e aqueles que se julgam superiores. Fala de opressão e da dor que ela pode inflingir sem que nós, à distância, a consigamos compreender. A história de Onyesonwu é, mais do que uma luta para matar o seu pai, uma luta para mitigar as desigualdades na sociedade fraturada em que cresceu.

É em pequenos pormenores que espelham o nosso mundo que compreendemos a sua fome de mudança. Com uma escrita ágil e escorreita, bastante simples, Nnedi Okorafor consegue envolver-nos e transportar-nos para um mundo de sensações e de pormenores ambíguos, onde o terror e a beleza andam de mãos dadas. Conhecemos personagens credíveis e poderosas, e somos convidados a sobreviver com elas.

Avaliação: 8/10

Publicado em 18 Junho 2018

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