Rebelde - Crítica no blogue O Papiro de Seshat

“As Crónicas de Nathaniel Starbuck” têm o seu início há mais de uma década, sendo publicadas concomitantemente com a aclamada série “Sharpe”, com a qual têm algumas ligações. Talvez por isso pareça ter sido uma preocupação secundária de Cornwell e possua algumas fragilidades.
 
“Rebelde” mostra no entanto os pontos fortes de Cornwell: narrativa sólida, excelente investigação, realismo; uma boa lição de história. As personagens são peculiares, vincadas e ora execráveis, ora fascinantes, caso do duro e selvagem Truslow. O livro culmina com a primeira batalha de Manassas que é sublimemente descrita, ora pelo realismo cru da narração, ora pela aura surrealista com que alguns personagens vivem o combate. Uma nação inteira perde ali a sua inocência e os personagens descobrem-se a si mesmos; o caricato surreal transmite na perfeição esse choque com a realidade.
 
Aqui devo ressalvar que não concordo com a maioria das críticas negativas de que a série tem sido alvo, mesmo se este não é o livro mais brilhante de Cornwell. A explicação poderá ser longa, pelo que peço a paciência dos leitores.
 
A legião de Faulconer é um conceito algo pateta. No entanto não faltavam na Confederação unidades irregulares e milícias financiadas privadamente com auto-nomeados oficiais. Através da Legião Faulconer, Cornwell parece procurar retratar essas improvisações baseadas em ideias românticas e obsoletas sobre a arte da guerra, e a heterogeneidade excêntrica que reinava nas hostes sulistas que tiveram de facto das personagens mais vincadas da guerra.
 
A maior crítica em Nathaniel Starbuck e na sua falta de motivações “legítimas” para ele “trair” o seu país. Esperaríamos o cliché de lutar por amor, pátria, honra e Deus? Há-os que vão para as forças armadas simplesmente porque gostam de armas grandes e aventura, outros porque alguma agrura ou má decisão não lhes deixou grandes opções. Nathaniel pertence a esse último grupo, e não precisaria de qualquer motivação caso fosse um sulista a lutar pelo exército da União, o lado “dos bons”.
 
A história pintou a Confederação como uma entidade pérfida de esclavagistas. Contudo, para muitos, a defesa dos seus próprios lares, o desejo de independência face à intromissão do Norte, o patriotismo, a camaradagem, foram motivações bem mais fortes do que a escravatura. A esmagadora maioria dos combatentes não tinham posses para um escravo, e uma vez instaurado o recrutamento obrigatório, o lado que os políticos decidissem para um Estado era o lado pelo qual uns tantos desgraçados iriam morrer, independentemente das suas posições políticas.
 
Tampouco a clivagem Norte/Sul é tão linear quanto esclavagistas vs. abolicionistas. Diversos estados esclavagistas mantiveram-se do lado da União, enquanto nos chamados “Territórios Índios” (futuro Oklahoma), as principais tribos, que tinham os seus próprios sistemas esclavagistas aliaram-se em massa à Confederação. Por outro lado, nos famosos motins de Nova Iorque, foram linchados homens negros que procuravam alistar-se no exército unionista; a população culpava-os pela guerra. No vergonhoso episódio da Batalha da Cratera, soldados negros foram passados a baioneta pelos seus camaradas brancos enquanto retiravam. Paradoxalmente, alguns milhares de soldados negros terão lutado do lado Confederado por vários motivos. O filme“Ride With the Devil” do premiado Ang Lee, inclui precisamente um negro a combater nos Bushwackers (tropas de guerrilha), por lealdade ao homem que lhe comprou a liberdade. O tratamento áspero que o filme recebeu é uma mostra de como muitos insistem em não querer compreender a complexidade da Guerra de Secessão.
 
O Sul ainda hoje mostra orgulho na rebeldia e Confederação independentista, efectivamente um exemplar precoce do nacionalismo do século 19 que levou à criação da Alemanha moderna e da Itália independente e unificada. Para o sulista de 1861, a sua era a causa justa e honrada, e para o sulista orgulhoso da sua herança, as opções de Starbuck não parecerão estranhas.
 
Portanto, “Rebelde” começa algo lento e demora bastante a atingir o clímax; empata até. Mas é um deleite assistir à ascensão do jovem Starbuck, que paga o tributo de sangue e ganha o respeito do selvagem Truslow e dos seus montanheses endurecidos. Starbuck descobre a sua natureza, o prazer pela dureza do combate e vê a sua ambição melhor servida pelo ofício da morte que pelo de seminarista. Deseja a glória no campo de batalha e nenhum homem precisa de justificação para isso.
 
Se nos libertarmos dos clichés ideológicos e políticos que esperam protagonistas com grandiloquentes motivações, a metamorfose do seminarista desonrado Nathaniel Starbuck em soldado cruel e agressivo é fascinante. Starbuck mata a sangue frio, cede à luxúria, desiste de ser subserviente e torna-se irreverente, decidido. Tem realmente poucas qualidades redentoras, mas no momento que separa os homens dos meninos, revela em o carniceiro eficiente em si. É um rebelde, um pária sem casa que enfim encontra a sua vocação e está em paz com isso. É por isso que não posso deixar de o admirar e me sentir exasperado para deitar as mãos aos próximos livros da série.
 
Esqueçam por momentos a descrição politicamente correcta da Guerra de Secessão, e o afamado grito rebelde ecoará nas vossas cabeças também.
Publicado em 7 Agosto 2013

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