Sedução ao Luar - Crítica em As Histórias de Elphaba

Saudades, eu tinha verdadeiramente saudades desta história.

É de conhecimento geral que eu sou uma grande fã de reinos extraordinários, de representações do maravilhoso que replicam muito mais do que eu consigo imaginar, no entanto há livros que se destacam devido à sua intensidade, complexidade e capacidade de representar o impossível e Sedução ao Luar é um destes casos. Mesclando de fantasia urbana com intrigas palacianas, Laurell K. Hamilton é audaz na luxuria enquanto remete os seus intervenientes para uma irresistível obscuridade, uma obscuridade que entrelaça sangue e pesadelos com a capacidade de fazer os imortais desejar a morte.
 
Numa luta contra o tempo para engravidar, factor que pode determinar a sua morte ou a sua primazia na linha de sucessão ao trono da arrepiante corte Unseelie, a protagonista desta narrativa, meio-humana meio-Shide, tem poucos meses até que o seu primo Cel, que tentou sucessivamente assassiná-la, seja libertado e piore, ainda mais, o louco cenário em que está inserida e que sempre tentou evitar. Entretanto, para lá de dormir todas as noites com pelo menos um dos guardas pessoais cedidos pela sua tia, Rainha, existem disputas para contornar, laços retorcidos para estabelecer e esta terá de aprender a lidar com uma nova magia que está a despertar através de si. Uma coisa é certa, apesar do seu inesperado poder crescente, o número de inimigos de Merry continua a aumentar e ela fará absolutamente tudo para se salvar e aos que estima, ultrapassando neste livro todos os limites imagináveis.
 
Embora este seja um livro repleto de momentos altos, de tensão crescente e muitas surpresas, é igualmente de interlúdio, com a diplomacia a ter um papel fundamental no futuro deste enredo extraordinário. Desta feita, é-nos permitido assistir de perto a um lado bastante inteligente deMeredith, que revela o muito que aprendeu com o seu pai, Shide, e uma dispare sensibilidade da sua parte tendo em conta a crueldade que a rodeia. Temos, portanto, uma personagem principal corajosa, evoluída e capaz de levar avante emoções desconhecidas entre os seus pares, mostrando na perfeição a dualidade que a caracteriza.
 
Esta história continua a ser muito rica para quem se sente atraído pelo universo feérico, principalmente na forma como estas criaturas se encontram caracterizadas. Neste sentido, os intervenientes secundários são abundantes e têm a mais-valia de se metamorfosearem durante a leitura. Os protectores da protagonista, anteriormente guardas daRainha obrigatoriamente celibatários, são quem mais se destaca e da minha parte eu continuo a acarinhá-los dentro do possível. Doyle, o Negrume, Rhys, Nicca e Sage, um semifeérico irritante, são os meus eleitos por motivos variados, mas a verdade é que, na sua maioria, estes seres seculares ou milenares encontram-se descritos de forma fascinante e são irrevogavelmente atractivos, principalmente agora que se encontram ligeiramente influenciados pelo mundo exterior à corte. Chega a ser divertido assistir aos seus actos na actualidade e são, certamente, muito excitantes enquanto amantes tão desiguais e de beleza hipnotizante.
 
Existem ainda outras personagens que merecem destaque e pelas quais me deixei encantar, muitas vezes por motivos contraditórios, que vão da repugnância ao medo. A Rainha Andais,Rainha do Ar e da Escuridão, já era das minhas favoritas e assim continua, agora mais perto da loucura e distante da perversidade sexual que a caracteriza, e também os anões em todas as suas acepções, cada delas uma mais extravagante e repulsiva que a anterior – pobre Merry.

As cenas sexuais tanto são maravilhosas como aversivas para o leitor, que se verá com sentimentos muito diversificados em relação ao texto. Gostei particularmente da que leva à transformação de Sage e Nicca, um momento erótico repleto de possibilidades e consequências como tudo o resto nesta história, em que cada pormenor ou diálogo pode fazer a diferença.
 
Outro destaque vai para os artefactos que passam a influenciar a vida da protagonista, entre eles o Anel anteriormente oferecido pela sua tia que permite identificar os feéricos férteis para acasalamento – esta espécie é extremamente infértil e daí todas as questões em torno da importância da gravidez deMerry – e o Cálice da Deusa Danu, que permite ampliar poderes e despertar magia há muito perdida por estas criaturas, proporcionando momentos lindíssimos para quem gosta de literatura fantástica.
Por fim, ainda relativamente a singularidades, as intrigas de corte estão no seu auge, com riscos e perigos constantes e uma delicadeza por parte protagonista para ultrapassar obstáculos louvável que, de qualquer forma, não a salvaguardará situações extremas e violentas a que esta se encontrará exposta, neste livro que é muito pouco romântico mesmo quando assistimos a algo idêntico a nossa definição de amor.
 
Em suma, Sedução ao Luar é um livro sobre sobrevivência, sobre a capacidade de uma existência, em parte humana, sobreviver face a um mundo extraordinário, sombrio, cru e irresistível, complexo na sua primitividade de carne e sangue, que representa na perfeição o género dark fantasy. Sedução ao Luar é um livro cativante e rico em perigos e sensualidade, que com uma história forte e bem idealizada tem tudo para conquistar uma legião de fãs deste género literário.
 
Laurell K. Hamilton tem uma escrita assertiva e simples, que permite abraçar o impossível sem que quem lê se perca, sendo permitida uma visualização geral, espacial e emocional, das muitas situações surreais que vão surgindo.
Os diálogos são muito interessantes, apresentando-se ora leves e descontraídos ora plenos de pressão e arriscados. Uma nota muito positiva para as lutas com magia, em que a tutora da Mão da Carne e da Mão do Sangue oferece uma imagem arrepiante e contrastante da mulher a que o leitor se habituou no primeiro livro.  
 
Pessoalmente, embora tivesse estado mais de dois anos afastada da série Merry Gentry, não senti qualquer dificuldade em voltar a este mundo extasiante e que adoro. Eu não posso falar de outras séries desta a autora, mas neste caso em particular ela está entre as minhas eleitas e fiquei ansiosa por continuar a ler, por saber o próximo passo da protagonista, por defrontar o próximo inimigo ao seu lado e por me deixar envolver nas sombras e no brilho interior que a caracterizam e fazem de si única.
 
Esta é uma aposta do Grupo Saída de Emergência que assenta que nem uma luva naColecção BANG!, histórias para leitores ousados que pretendam algo diferente e igualmente gratificante.
Publicado em 2 Maio 2014

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