Seraglio - Crítica no blogue As Leituras do Corvo

Raptada por piratas quando regressava a sua casa na Martinica, Aimée du Buc é avaliada como um bom presente e, por isso, enviada para o harém do sultão. Chega como uma jovem assustada e que se recusa a acreditar que ninguém a poderá salvar daquele lugar estranho. Mas, à medida que os dias passam e a jovem se habitua ao seu novo nome, Nakshidil, bem como ao papel que ali desempenha e pode conquistar, ela guarda o passado num canto da sua mente e empenha-se em subir da hierarquia da única forma possível: atraindo as atenções do sultão. O problema é que tornar-se favorita pode ser apenas o início e, num império que vive tempos de mudança, a queda em desgraça pode estar à distância de um passo em falso.
Centrado, em grande parte, na vida da protagonista e narrado, quase na totalidade, pelo chefe dos seus eunucos, a história de Seraglio decorre, em grande medida, no harém. Isto significa que, apesar das grandes mudanças a decorrer no Império Otomano, estas são vistas, em grande medida, de forma parcial, limitada pela percepção de Nakshidil e dos que a rodeiam. Não há nada de essencial que fique por dizer e há inclusive alguns momentos particularmente intensos, até porque, ainda que apresentada de forma discreta, a intriga é um elemento bem presente nesta história. Há, pois, situações de grande tensão, principalmente na fase final do livro, e o contexto apresentado é suficiente para compreender os acontecimentos. O contexto global, contudo, é desenvolvido de forma relativamente sucinta, ficando a impressão de que um pouco mais poderia ser dito.
É, pois, a vida no harém o que é mais desenvolvido e, neste aspecto, a caracterização é bastante completa, desde a hierarquia no seu interior aos costumes e rituais, passando ainda por uns quantos pormenores de vestuário e decoração. Cria-se, assim, um ambiente bastante fácil de visualizar, o que contribui para a envolvência de uma história que, tendo os seus pontos fortes na história da protagonista e na empatia que esta desperta, cativa também pela aura de encanto e de estranheza que rodeia o seu cenário.
Quanto a Nakshidil, que é, afinal, o centro de toda a história, cativa a construção da sua personalidade, em simultâneo vulnerável e determinada, bem como a sua evolução ao longo do enredo. Desde a entrada num mundo onde tudo lhe parece estranho até ao momento em que, com a excepção de pequenas ligações ao passado e à memória, parece pertencer, desde sempre, ao lugar, Nakshidil cresce para revelar o seu melhor a cada obstáculo que enfrenta, pequeno ou aparentemente intransponível. E, no fundo, é essa persistência o que torna a sua personalidade tão cativante. Para além, é claro, da sua invulgar noção de lealdade e amizade, num ambiente onde o interesse e a intriga parecem dominar.
Envolvente desde as primeiras páginas e com uma história que, apesar de ter como cenário um império em mudança, se centra mais nas mudanças operadas sobre a sua protagonista, Seraglio proporciona uma leitura cativante, com um cenário bem construído (ainda que mais pudesse ser explorado quanto à vida para lá do harém) e personagens fortes e empáticas. Uma boa leitura, portanto.

Publicado em 15 Novembro 2012

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