Terrarium - artigo na revista Estante

Mais de 20 anos depois, está de volta às livrarias, em versão revista e aumentada, uma das principais obras da ficção científica feita em Portugal. Já conheces Terrarium?

Há ficção científica em Portugal? Há. Mas é pouca. O género conheceu o seu auge no nosso país durante as décadas de 1980 e 1990, época em que se publicavam umas dezenas de livros de ficção científica por ano. Existiram as coleções Argonauta e FC Europa-América, bem como o Prémio Caminho de Ficção Científica. Mas o género nunca descolou no que respeita a vendas, e eventualmente deu lugar à literatura fantástica.

Houve pouca ficção científica em Portugal? Houve. Mas era boa. E um dos principais títulos de referência chamava-se Terrarium. Originalmente publicado em 1996, começou por ser escrito por João Barreiros, que depois chamou Luís Filipe Silva, anteriormente distinguido com o acima citado Prémio Caminho de Ficção Científica, para o ajudar a terminar.

“Quando contactei o Luís Filipe Silva, tinha já cerca de 80% da obra concluída. Mas havia buracos narrativos que era necessário colmatar. Precisava de uma voz diferente da minha para garantir a autonomia de outros personagens. Isto sem esquecer como é divertido e estimulante escrever a quatro mãos”, explica o autor de obras como Se Acordar Antes de Morrer. Para Luís Filipe Silva, foi “uma daquelas ofertas impossíveis de recusar”. E assim nasceu o primeiro grande romance da ficção científica portuguesa, reeditado este ano, mais de duas décadas depois, numa versão muito especial: revista, aumentada e com nova capa.

Um romance em mosaicos

O termo “romance” poderá, contudo, não ser o mais indicado para descrever Terrarium. Isto porque o livro não é um romance tradicional, mas antes um “romance em mosaicos”, composto por novelas e noveletas que se vão gradualmente entrecruzando.

“A estrutura de um romance em mosaicos permitiu que eu e o Luís pudéssemos manter as nossas vozes particulares, a nossa independência narrativa, e garantir a perspetiva fragmentada de um universo onde o que um de nós diz ou afirma não será necessariamente a verdade defendida pelo outro”, esclarece João Barreiros. E acrescenta: “O mundo é assim mesmo: um mosaico que se constrói a várias vozes.”

Luís Filipe Silva, por sua vez, prefere justificar a estrutura criativa de Terrarium com uma razão mais prática: “Para primeira experiência a escrever em conjunto, é a forma mais fácil de encaixar textos de dois autores e também a logisticamente mais exequível, tendo em conta que não havia, há 20 anos, a capacidade de vários autores colaborarem no mesmo documento que atualmente certas plataformas on-line permitem.”

Potencialidades infinitas

Estrutura à parte, Terrarium é uma distopia passada no futuro, que tem como pano de fundo o colapso da Fortaleza Europa e a necessária resistência a criaturas extraterrestres que pretendem dominar o planeta.

Foi João Barreiros o responsável pela criação deste universo, baseando-se essencialmente em autores de space operas – como Larry Niven, Gregory Benford e Cordwainer Smith –, mas também em nomes mais habituados à exploração do “espaço interior”, como J. G. Ballard, Christopher Priest e Michael Moorcock. “E, para colmatar tudo, a linguagem mais moderna de um futuro elétrico e virtual como a linguagem, nessa altura tão recente, de um William Gibson”, indica o autor. Luís Filipe Silva também se baseou na literatura, nomeadamente a produzida por Stephen King, Jack Vance e Theodore Sturgeon, mas diz também ter sido influenciado por filmes, séries televisivas e bandas desenhadas “facilmente identificáveis para quem estiver atento”.

Os autores não deixaram completamente de colaborar nos anos decorridos desde o lançamento de Terrarium. Em 2011, por exemplo, Luís Filipe Silva incluiu um conto de João Barreiros na original antologia Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa. Antes disso, houve também uma tentativa de escrita de uma série de romances em conjunto com outro autor, algo que acabou por não acontecer. Os autores não põem, contudo, de parte uma eventual nova colaboração.

“Infelizmente, as condições de mercado, a nível de edição, estão menos e não mais recetivas a livros desta natureza, por estranho que pareça”, diz Luís Filipe Silva, concluindo que “será difícil, mas não impossível”. João Barreiros concorda: “Quem sabe? O universo está cheio de potencialidades infinitas.”
 

3 PERGUNTAS A JOÃO BARREIROS E LUÍS FILIPE SILVA

No prefácio que escreveu para a reedição de Terrarium, o autor brasileiro Gerson Lodi-Ribeiro diz que o livro é “indiscutivelmente o melhor romance de ficção científica jamais escrito em língua portuguesa”. Concordam?


João Barreiros: Temos forçosamente de concordar. E permitam-me um pouco de cáustico humor: Terrarium será “indiscutivelmente o melhor romance de ficção científica jamais escrito em língua portuguesa” porque… poucos mais houve que se tivessem escrito por cá, em lusas terras.

Este género de literatura sempre foi mal-amado entre os meios académicos. Raras são as menções a surgir nas criticas literárias dos meios de comunicação social. O pouco que se fez, que se escreveu, permanece ignorado, afastado, reduzido à gélida ignorância de quem nunca o leu nem alguma vez vai desejar ler. A falta de oxigénio e de luz solar faz com que as coisas permaneçam invisíveis a minguar na escuridão. Em tempos, o Mário-Henrique Leiria trouxe um raiozito de luz à anomia global. Passou-se o mesmo com o Romeu de Melo. Mas estas foram duas vozes a clamar no deserto. Sabemos que existem muitos mais autores brasileiros a escrever ficção científica. Mas não são portugueses, portanto…

Luís Filipe Silva: Não caberá aos próprios autores opinar sobre isso, mas “o melhor livro de todos os universos e todas as épocas, para jamais ser igualado” seria uma descrição mais factual… Agora a sério, o que nos deixaria felizes seria encontrar um novo romance por outro autor português que disputasse tal título, daqui a uns anos. Significaria que a ficção científica estaria em ascensão.


O que tem de tão especial este livro, de tiragem inicial tão limitada, para ter permanecido na memória coletiva ao longo de 20 anos, justificando esta reedição especial?


João Barreiros: Foi decerto um epifenómeno. Um daqueles eventos tão raros que provavelmente nunca mais vão repetir-se. A verdade é que rompeu com todos os paradigmas e convenções da época em que foi escrito. Não era uma obra neorrealista, mas sim hiper-realista. Não procurava reproduzir “estados de alma”, mas sim um mundo exterior estranho e numinoso, como se “estivéssemos lá”. Não olhava para o umbigo dos autores, mas procurava descrever, com o máximo de pormenor, um universo bem mais vasto do que a lusa pátria. Tinha sentido de humor (negro, bem negro), mas sem nunca roçar o disparate. Foi escrito em português e por dois autores, coisa rara e nunca vista. E falava do futuro como se este já fosse presente, coisa que a todos preocupa, pois é lá, nesse futuro, que vamos passar o resto das nossas vidas.

O livro surgiu, manifestou-se e logo desapareceu, como se houvesse alguém que o quisesse riscar da realidade. Esta perda súbita gera nos leitores o desejo de recuperar o que se perdeu. E com os anos que passam, esse desejo não fez mais do que aumentar.

Luís Filipe Silva: A irreverência, a exuberância e o ritmo frenético contribuem para uma experiência de leitura invulgar numa cultura literária pautada pela contemplação. A narrativa tomou esteroides e os leitores vão atrás. É também uma declaração de amor à ficção científica, com piscadelas de olho e referências que fazem o agrado dos fãs.


Qual é a principal razão para não vermos mais ficção científica portuguesa: falta de autores ou falta de leitores?


João Barreiros: De facto, falta tudo. As três coleções que publicavam ficção científica em Portugal desapareceram há já alguns anos. Nada as veio substituir. O mundo minguou e reduziu-se a sucedâneos de fantasia à moda de Harry Potter e Tolkien.

A fobia à ciência revela um pouco do fracasso do nosso sistema educativo. A ciência e o pensamento positivo exigem demasiado de um país que ainda acredita em “milagres”. Para os jovens de hoje, tudo parece resolver-se, sem esforço, com o toque de uma varinha de condão. O futuro deixou de ser luminoso. E como esse futuro mete medo, os eventuais leitores passaram a refugiar-se no passado, na fantasia, num lugar onde nada nunca muda, como diria o Heraclito. E quanto aos autores, bom…

Luís Filipe Silva: A falta de espaços de publicação dá azo a que os leitores não se habituem a ler em português, pelo que daqui não brotam autores, que serão alvo de crítica e análise por especialistas, pelo que não existe divulgação, e logo não há incentivo financeiro para as editoras criarem espaços de publicação. É um círculo vicioso e podia ter começado por qualquer ponta. Não percebi ainda como contrariá-lo, nem se tal é possível.


Por: Tiago Matos

Publicado em 22 Março 2017

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