Últimos Ritos - Crítica em Ler y Criticar



Existem livros que nos empolgam, que nos viciam. Existem outros que apresentam uma história que nos fascina, outros que nos mostram uma impressionante qualidade do início ao fim. Este livro de Hannah Kent tem um pouco de tudo isto, em diferentes fases, e no fim, é, simplesmente, bom!

Este é, inevitavelmente, um livro que se torna cada vez mais forte e pesado com o tempo, pois com o adensar da nossa aproximação com Agnes, também começamos a perceber a sua dor, a sua revolta, e o seu sentimento perante o inevitável. E a questão que se levanta até consumir toda a nossa mente é: estará Agnes inocente?

Numa escrita elegante e capaz de aprofundar as personagens (para não falar das fantásticas descrições de locais e ambiente), a autora aproxima-nos de Agnes, e só não o consegue ainda melhor porque a narrativa por vezes deixa de ter Agnes como personagem principal, dando-nos uma visão muito interessante do que e de quem a rodeia, mas perdendo-se por momentos a ligação com a personagem. Na minha opinião, prefiro assim, porque ao termos uma visão mais global, conseguimos perceber o "peso" que esta situação tem para a comunidade e para a família que acolheu Agnes.

Acima de tudo, este é um livro que nos leva a sentir o sabor da injustiça, porque no meu caso, enquanto li o enredo, acreditava que Agnes era inocente (pelo menos a personagem de ficção), e tal sentimento aproximou-me da personagem, agarrando-me à leitura mesmo sabendo como a história acaba. E é com essa aproximação que o livro começa a levantar questões e nós somos esmagados pela falta de respostas, porque estamos a lidar com algo definitivo, que é a morte de alguém e a pena de morte para Agnes. E no fim, questionamos o que sentiriamos se fossemos Agnes. Se soubessemos que iriamos ser executados, o que tentaríamos fazer? Que memórias queremos deixar? Como enfrentaremos tal situação se um dia nos aparecer à frente?

Talvez o único aspeto que me desagradou ligeiramente neste livro foi o facto de Agnes nunca mostrar um lado mais "mau". Agnes é uma persoangem boa, com boas intenções, e raramente senti que existisse algo de mau nesta personagem... algum ódio, talvez fosse esperado, ou revolta, mas Agnes é uma personagem boa. Tal levou-me a pensar que a personagem poderia estar a representar, mas durante a leitura deu-me a ideia que a autora pode ter exagerado ligeiramente na tentativa de nos aproximar. Tal não retira qualidade a este excelente livro, mas esperava uma personagem que tivesse as duas faces devido à situação. 

Todos nós, sem exceção, durante toda a História da humanidade, seremos recordados pelo que os outros vêem em nós. Mas, e se essas histórias forem falsas? E se apenas nós conhecermos a verdade? Quantos terão sido injustiçados desta forma? Onde está, afinal, a justiça de tudo o que nos rodeia?

Este livro é forte, é pesado, e deve ser lido com calma, questionando o que lemos, sentindo o que a personagem sente, e o resultado será uma viagem única. Esta obra é uma das mais agradáveis surpresas que tive nos últimos tempos e percebe-se o porquê de tantos prémios internacionais. Dificilmente a autora voltará a escrever um livro tão esmagador em alguns temas, mas fiquei curioso para ler os seus próximos trabalhos. Não esperem um romance agradável, não esperem um final feliz... esperem uma viagem ao interior de alguém que sabe o dia e a hora em que vai morrer. Profundo e perturbador. Vale a pena ser lido e qualquer leitor irá perceber o porquê de ser um livro com tantos prémios.

Publicado em 16 Março 2015

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