Uma Praça em Antuérpia - Crítica em São Paulo Review

Primeiro dia do ano 2000. Uma senhora resolve abrir o seu coração e revelar à sua neta uma história que permaneceu guardada apenas na memória, desde a Segunda Guerra Mundial. No seu relato, aborda uma família portuguesa que enfrentou situações trágicas durante o episódio que marcaria o mundo para sempre, quando foi obrigada a cruzar a Europa para fugir dos nazis. Uma fuga que chegaria ao fim em terras brasileiras. Este é o enredo de Uma Praça em Antuérpia, romance de Luize Valente, que traz a cada capítulo uma grande surpresa, encontros e desencontros entre personagens e decisões que precisam de ser tomadas para que a família se mantenha unida e longe dos perseguidores. A maior das surpresas é quando a personagem secundária mais adorável do livro acaba por usar a sua posição profissional para resolver uma deceção pessoal e amorosa, o que acaba por interferir com todo o desfecho.
Se a autora é considerada uma das grandes vozes do romance histórico contemporâneo no Brasil, a confirmação acontece pelo simples facto de que retrata toda uma época não apenas como escritora de ficção. A impressão é de que vivenciou tudo ao mínimo detalhe.
Não bastasse a pesquisa, essencial para que isso fosse possível, tem nas mãos uma história excecional e, mais do que isso, sabe como explorá-la.  Parte disso deve-se à trajetória da protagonista, que enfrenta uma série de obstáculos e situações inesperadas. A solidariedade transforma-se no elemento que dá o toque de veracidade à história.
E é através de todo o contexto histórico que Luize conseguiu levar-me ao passado, num misto de aventura e aula de História convincente. O resultado é que, através de Uma Praça em Antuérpia, foi possível conhecer mais do que apenas a vida de judeus perseguidos durante a Segunda Grande Guerra, e a grande ironia de ver um país, que, num passado distante, expulsou os judeus, e depois serviu como único refúgio para esse povo.
Se noutras obras com o tema nazismo/diáspora a figura isolada de Hitler é explorada com grande frequência, desta vez Salazar e Franco, líderes de Portugal e Espanha, respetivamente, ganham o mesmo destaque, sendo retratados como figuras essenciais para o entendimento de tudo o que se passa com Clarice e a sua família. No fim, personagens reais e ficcionais encontram-se, direta ou indiretamente, ressaltando assim o que foi citado anteriormente sobre Luize Valente ser a principal representante do género do romance histórico no Brasil. Falar sobre Uma Praça em Antuérpia exigiria mais do que uma crítica literária. Seria necessário explorar com riqueza os detalhes de cada personagem, por mais insignificante que possa parecer, além de possíveis debates sobre como um desencontro pode ter consequências trágicas e inimagináveis. Consequências essas que transformaram a cena final, sensível e emocionante como nenhuma outra, em algo para ser levado connosco até ao fim da vida. Enfim, um livro para se colocar no altar.
 

Por Ricardo Biazotto - São Paulo Review
 
Publicado em 3 Setembro 2015

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