Uma Praça em Antuérpia crítica por Carolina Floare

Luize Valente já se consagrou como uma especialista do romance histórico no Brasil. Uma Praça em Antuérpia, publicado em 2015 pela editora Record, é o seu segundo livro no género. A parte mais densa do ponto de vista histórico, e também da trama, centra-se durante o período da Segunda Guerra Mundial e é onde a autora atinge a maior originalidade na sua obra, fugindo aos déjà-vus comuns ao tema do antissemitismo, e abordando a questão por um prisma pouco visto na literatura e no cinema.

Como no cinema
A construção minuciosa do enredo, que viaja, de forma não linear, segura, ao longo do século XX; a criação de personagens complexas e fascinantes (que dão água na boca a qualquer ator!); o aprofundamento da reconstituição histórica, que chega a detalhes deliciosos para qualquer apaixonado por História, como as condições meteorológicas reais ou a notícia ipsis litteris que saiu num jornal em determinado dia – estas são as raízes fortes de uma bela árvore alimentada pela seiva da perfeita verosimilhança interna, como compete ao melhor romance histórico. E o que mais instiga neste livro, enquanto romance histórico, é justamente o seu não-didatismo, o seu foco nas estórias da História, no humanismo das situações, nos componentes sociais, axiológicos
e sentimentais das épocas escolhidas. O tempo cronológico e os cenários descritos com precisão cinematográfica misturam-se ao tempo psicológico e aos espaços interiores onde habitam os conflitos dos personagens, sendo estes – o tempo psicológico e os espaços interiores – os grandes protagonistas deste romance. Como chave de platina, a estratégia narrativa é inteligentíssima, com capítulos curtos encadeados por ganchos urgentes, que nos tornam cativos encantados da leitura. Ao terminar, temos a sensação de ter visto um filme.

Revelações de Ano Novo
Começamos com a octogenária Olívia Braga de Almeida, dona de uma das maiores redes de supermercados do Brasil, assistindo ao amanhecer do primeiro dia do novo milénio na varanda do seu apartamento num luxuoso hotel do Rio de Janeiro. É quando a sua neta, Tita, a surpreende
com uma fotografia antiga, nunca antes vista, em que Olívia, jovem e grávida, aparece ao lado de um homem e um menino desconhecidos, numa praça em Antuérpia, na Bélgica. Noutra fotografia da mesma época, Olívia está ao lado do marido e do filho que Tita bem conhece. A revelação, então, surge: “Olívia”, na verdade, é Clarice, a mulher da fotografia desconhecida em Antuérpia, grávida de Helena, mãe do pequeno Bernardo e mulher do judeu alemão Theodor Zuskinder, pai de seus filhos. A verdadeira Olívia – a da fotografia conhecida – era sua irmã gémea, com quem, sessenta anos antes, trocou de identidade durante uma fuga em plena Segunda Guerra Mundial. A partir desta revelação, Tita conduz a avó por uma viagem no tempo, durante a qual Clarice narrará a saga da sua família e o acaso do destino que provocou a troca de identidades, e, depois, por uma viagem no espaço, até Portugal e Antuérpia, onde, finalmente, o resgate da identidade perdida acontece. Uma história universal, de grandes amores, fatais desamores e intensa fraternidade em tempos de guerra. Arrebatador.
Publicado em 16 Setembro 2015

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