Vida Roubada - Crítica no Diário Digital

«Vida Roubada»: a identidade segundo a Coreia do Norte

Por Pedro Justino Alves
 

Vencedor do Prémio Pulitzer 2013, «Vida Roubada», de Adam Johnson, revela factos de um dos países mais desconhecidos do Mundo, a Coreia do Norte. Uma brilhante obra de ficção onde o Amor e a Identidade acabam por pairar sobre toda a trama criada pelo norte-americano. A edição é da Saída de Emergência.

Em «Vida Roubada» é-nos apresentado o trajecto do órfão Jun Do, que procura acima de tudo sobreviver. Na primeira parte do livro, a passividade comanda o seu destino, já que aceita tudo o que lhe pedem, sem questionar as ordens, por mais estranhas que sejam. É assim que acaba por ser recrutado para raptar pessoas, geralmente no Ocidente, pessoas que são “requeridas” sem justificação para agradar os caprichos da classe dirigente. Tudo fica alterado após um encontro com um navio norte-americano. É nesse momento que Jun Do começa a colocar em causa as bases do Estado norte-coreano.
 
A obra de Johnson apresenta com fulgor um fundo histórico e político, mas brilhantemente inserido numa história fascinante, com um enredo que dificilmente não será do agrado do leitor. A ascensão e a “queda” de Jun Do é cativante, principalmente devido aos pólos opostos que o personagem ocupa no decorrer do livro: de uma peça fundamental para uma peça descartável do sistema.
 
Estamos perante uma novela de certo modo trágica, mas motivadora ao mesmo tempo. Johnson aborda vários temas, como a fome, a lobotomia, o trabalho forçado, os assassinatos, as torturas, as deserções, a morte, a polícia política… Nada fica por escrever, com o norte-americano a oferecer um fresco realmente perturbador de um país tão pouco conhecido por todos.
 
Todavia, o autor aborda principalmente a identidade, que, na Coreia do Norte, não pertence a ninguém, apenas ao Estado.
 
«- No lugar de onde vimos – disse ele – as histórias são factuais. Se um agricultor é declarado músico virtuoso pelo Estado, é melhor toda a gente começar a chamar-lhe maestro. E, secretamente, seria aconselhável que começasse a praticar ao piano. Para nós, a história é mais importante do que a pessoa. Se um homem e a sua história estão em conflito, é o homem que tem de mudar. – Aqui, o Dr. Song, tomou um pouco de sumo, e o dedo que ergueu tremia ligeiramente. – Mas, na América, as histórias das pessoas estão sempre a mudar. Na América, é o homem que interessa.»
 
Com grande mérito, Johnson apresenta uma obra carregada de realismo, ficção e intriga. Mas também de Amor, que comanda a transformação de Jun Do, que se apaixona pela actriz modelo do país, Sun Moon, após ver um dos seus filmes (o cinema é um dos temas recorrentes da obra). Actriz que está tatuada no lado esquerdo do peito do protagonista, uma tatuagem feita antes de a ter visto.
 
É precisamente quando Jun Do conhece o Amor que encontra finalmente a sua identidade (curiosamente quando assume o papel de outro…), sentimento capaz de fazer com que contrarie os caprichos impulsivos e opressivos de Kim Jong Il, principal responsável pelos movimentos dos “peões” do seu país.
 
É Kim Jong Il que move/cria a história final de Jun Do, que não é para ser conhecida pelos norte-coreanos, o que obriga a difundir, através dos altifalantes espalhados pela capital, a não história de Jun Do/Comandante Ga, uma história totalmente diferente da realidade, numa clara demonstração da supremacia dos interesses nacionais sobre o indivíduo.
 
No entanto, e acima de tudo, a “vitória” é da identidade e do amor, mesmo que tenham de ser silenciados.
 
Avassalador!

Publicado em 7 Março 2014

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