Vida Roubada - Crítica no Ler y Criticar

O que é "liberdade"? Um conceito? Um ideal? Um direito? Uma realidade ou uma miragem? Este é um livro sobre a liberdade que alguns nunca terão, simplesmente porque não nasceram no sítio certo. Este é um livro que demonstra, de forma atroz, o quanto estamos cego e a facilidade com que nos esquecemos. Nós vemos, transtornados, o que outros povos sofrem... comentamos, achamos injusto, questionamos como certas coisas ainda podem acontecer no nosso tempo, e depois, esquecemos. Outras pessoas não esquecem, porque vivem nesses locais.
 
Com uma linguagem que consegue ser, simultaneamente, bela e aterradora, o autor mostra-nos uma realidade inquietante sobre um país que não conhecemos. A forma como a manipulação de massas é feita, é, na realidade, apenas uma parte do problema, e aqui fica bem exposto como se consegue convencer as pessoas, usando uma teia demasiado vasta para ser explicada em poucas palavras. Expondo um pouco esta realidade, o autor cria um livro que vence por ser ambicioso e audaz, enquanto nos envolve num romance que demonstra o poder que o amor tem... capaz de vergar o que parece inquebrável. 
 
Apresentando-se com uma primeira metade mais próxima da mente do personagem principal, vemos como governo e povo se ajudam, de forma natural e automática, a sustentar esta forma de vida, como se fosse natural, talvez por desconhecimento do que está para lá da fronteira, talvez por resignação, certamente por medo. A nossa personagem principal é mais um dos que vive, sem na realidade viver mais do que o lhe é permitido, e é pelos seus olhos, que lentamente se abrem, que vemos as barreiras levantadas à volta de uma nação, que não deixam espaço para sonhar. 
 
No entanto, podemos sempre questionar até que ponto certos acontecimentos podem ser reais, mas a forma segura com que Johnson as descreve leva-nos a aceitar a realidade deste livro, porque, aos poucos, tudo faz sentido neste enredo inteligentemente sustentado e coerente. E pelo meio, enquanto nos sentimos rodeados por uma narrativa que vai crescendo de intensidade, quase nos esquecemos que esta obra tem um objetivo que é mais forte do que expor um regime, e esse objetivo é mostrar o melhor e o pior de quem habita o mesmo mundo que nós. E no fim, os dois extremos tocam-se neste enredo, mostrando o ódio e o amor que o ser humano pode sentir, e talvez seja isso que nos faz humanos. 
 
Adam Johnson criou um dos melhores livros dos últimos anos e os prémios que venceu são a prova. A forma detalhada com que descreve os vários locais e etapas da vida da sua personagem leva-nos a perceber a escala da máquina que controla um país, e, simultaneamente, a enorme discrepância entre os que controlam e os que são controlados, mesmo sem terem essa noção. No início pode existir alguma confusão, devido aos saltos que a narrativa dá entre narradores e espaço temporal, mas a escrita é simples o suficiente para nos canalizar a atenção para o que é importante, e a partir do momento que nos agarra, é difícil resistir a este livro que deve ser lido.
 

Tentando não falar nem uma linha sobre a história, pois este é um enredo que deve ser lido sem qualquer revelação, tudo o que eu possa enumerar não é mais do que pequenos detalhes num livro que respira qualidade em todas as suas páginas. Ainda é cedo para dizer se será o melhor livro de 2014 lido por mim, mas será, certamente, um dos melhores do ano. Vencedor do Prémio Pulitzer em 2013, este livro é mesmo muito bom. Inteligente, forte, marcante, revelador... totalmente recomendado.

Publicado em 24 Fevereiro 2014

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