O Poder - Opinião no Notícias de Zallar

Um livro em que a atualidade é um passado longínquo, com algumas referências ao nosso país? Sim ou claro? Naomi Alderman venceu o Baileys Women’s Prize For Fiction de 2017 com The Power, livro de 2016, numa altura em que a Saída de Emergência publicava por cá Desobediência, o livro de estreia da autora. Menos de um ano depois, a mesma editora publica o tão controverso livro que encantou, entre outros, o ex-presidente do Estados Unidos Barack Obama. The Power tem os direitos vendidos para uma série de TV pela Sister Pictures.

Distopia futurista, The Power foi traduzido à letra no nosso país como O Poder, livro da Coleção Bang! da Saída de Emergência com um total de 368 páginas e tradução de Sónia Maia. Natural de Londres, Alderman frequentou a Universidade de Oxford, é professora de Escrita Criativa na Bath Spa University e escreve frequentemente para o The Guardian. Vamos conhecer o seu inquietante imaginário!

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Fonte: http://www.magazine-hd.com/apps/wp/o-poder-naomi-alderman/

Em O Poder, Naomi Alderman desafia a definição de feminismo. O feminismo é o nome de um movimento desenvolvido tendo em vista a emancipação da mulher num mundo em que elas foram vítimas de todo o tipo de abusos, castrações e limitações por parte do género masculino. Ao longo dos tempos, e à medida em que a igualdade entre os géneros se foi constituindo (ainda não chegámos lá, mas quase) o termo feminismo foi-se adulterando.

 

“Com uma bonita edição repleta de ilustrações de falsos artefactos e outras surpresas, O Poder é uma leitura imprescindível para a compreensão das sociedades e da evolução dos tempos.

 

O feminismo nos dias de hoje é visto por muitos, tanto por homens como por mulheres, como o equivalente feminino do machismo, um painel de comportamentos que enfatizam a arrogância de género em detrimento do outro. E é esta conceção que Alderman retrata no seu livro, mostrando de uma forma criativa e original como ambos são tão semelhantes e no quanto ambos podem ser tão ridículos como perigosos nas suas convicções.

Poder

Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-poder/

Confesso que O Poder me surpreendeu pela positiva. Sendo um livro tão representativo do ascender da mulher numa perspetiva de soberania, esperava sinceramente uma história de feminismo barato onde a mulher se camufla de vítima para ganhar predominância sobre o sexo masculino. Mas o que Naomi Alderman nos oferece é muito mais do que isso. Ela faz-nos viajar no tempo, na sua ótica distópica, e apresenta-nos a um futuro possível, onde a mulher ganha vantagem sobre o homem graças a um terrível poder.

Naomi Alderman tem um papel fictício no seu próprio livro. Ela vive num futuro pós-Cataclismo, um Apocalipse tremendo que vitimou o nosso mundo após o explodir de uma guerra nuclear. No mundo em que ela vive, os homens são pouco mais que objetos, usados sobretudo para fins sexuais. São estigmatizados, olhados de lado, pisados pela hegemonia das mulheres. E isso é algo tão enraizado na cultura que ela quase tem dificuldade em acreditar que um dia isso foi diferente.

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Fonte: creepysantos.blogspot.com/2018/04/saida-de-emergencia-publica-o-poder-de.html

É quando troca correspondência com um escritor da Associação de Escritores Masculinos, Neil Adam Armon, por quem nutre grande estima, que ele lhe manda um manuscrito com a sua visão do que teria ocorrido no período pré-Cataclismo, com base em artefactos e testemunhos do passado. Os eventos da história começam alguns anos antes do “Fim do Mundo”, quando as mulheres descobriram que possuíam… o Poder. Esse manuscrito é a história do livro.

“Em O Poder, Naomi Alderman desafia a definição de feminismo.”

Algures num futuro não tão distante do nosso, todas as raparigas do mundo com cerca de 15 anos começam a libertar choques elétricos das mãos, podendo despertar o mesmo poder nas mulheres mais velhas. Descobre-se então que elas possuem uma meada na clavícula, resultante de uma mutação genética, que produz uma surpreendente cadeia de energia. Em pouco tempo, a grande maioria das mulheres consegue libertar descargas elétricas, o que as coloca numa posição social de vantagem para com os homens.

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Fonte: Saída de Emergência

Nas nações mais civilizadas, a mulher aprende a usar o seu poder com mais tato e precisão, vindo a ganhar lentamente vantagem em questões sociais e na disputa de cargos de poder. Nos países em que as mulheres ainda sofrem grandes abusos e lhes é concedida pouca importância e nula opinião, ocorrem fenómenos mais bruscos. Ali, as inversões de poder ocorrem com mais violência e celeridade. Em pouco tempo, os homens são obrigados a sentir na pele séculos de mágoa e ressentimento.

Alisson Montgomery-Taylor é uma menina que sofre na pele abusos físicos e sexuais por parte do seu tutor. Assim que descobre o dom, vinga-se nele e foge de casa, rumando a um asilo para jovens carenciadas, gerido por freiras. Allie afeiçoa-se ao lugar e acaba por fazer dele a sua casa. A jovem ouve uma voz na sua cabeça, que crê ser Deus, e em pouco tempo desenvolve uma religião com a Virgem Maria no cerne das suas crenças, uma vez que, na ótica religiosa, o criador é mais poderoso que a criação. A sua seita usa como bandeira a famosa Mão de Fátima da fé islâmica, com o Olho Que Tudo Vê ao centro.

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Fonte: https://scifi.blogfolha.uol.com.br/2018/06/27/mulheres-dominam-sociedade-com-choques-eletricos-em-ficcao-distopica/

Graças ao poder da Internet e das redes sociais, Allie transforma-se rapidamente numa celebridade. É conhecida como Mãe Eva, e conquista milhares de pessoas em todo o mundo à sua causa, muito por conta do seu talento especial em usar as descargas elétricas para curar doenças ou até acalmar emoções. Allie torna-se próxima de uma rapariga chamada Roxanne “Roxy” Monke, uma jovem londrina que nasceu numa família ligada à Máfia e que desde cedo percebeu que não podia confiar em ninguém, nem na sua própria família.

“Ela faz-nos viajar no tempo, na sua ótica distópica, e apresenta-nos a um futuro possível, onde a mulher ganha vantagem sobre o homem graças a um terrível poder.

Margot Cleary é uma Presidente da Câmara casada e mãe de duas filhas, que vê o seu mundo virar-se do avesso quando a filha mais velha, Jocelyn, descobre o poder e desperta o seu. Da gestão da família ao divórcio, passando pelos conflitos físicos e emocionais que a filha enfrenta, aos escândalos na imprensa, Margot recorre às armas que tem para fazer ver aos homens com quem se habituou a lidar, no dia a dia, o quanto é poderosa. Até onde poderá subir Margot na cadeia de poder?

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Fonte:https://www.goodreads.com/book/show/29751398-the-power

O outro protagonista da trama é – surpreendam-se – um homem. Olatunde “Tunde” Edo torna-se uma celebridade na Internet depois de filmar as primeiras aparições de descargas elétricas. O jovem nigeriano ganha fama graças aos seus vídeos virais e torna-se uma espécie de jornalista freelancer, pouco avesso à justiça mas com grande credibilidade na Internet. Focado em desmascarar o uso abusivo desse poder, Tunde ganha o respeito de líderes mundiais, mas em certa medida verá também a sua cabeça a prémio.

Roxy, Allie, Tunde e Margot são os protagonistas desta história e é através do seu olhar que a vemos desenrolar-se, mas não são os únicos a ter capítulos de ponto de vista. Também Darrell, irmão de Roxy, e Jocelyn, filha de Margot, têm os seus capítulos, numa fase mais avançada do livro. Gostei bastante da forma como as personagens foram desenvolvidas, da escalada global – devastadora – que o poder das mulheres foi ganhando ao longo da narrativa, e dos efeitos terríveis que ele alcançou.

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Através do exemplo de Tatiana Moskalev, uma primeira-dama que se tornou líder de uma potência mundial, a fictícia Bessapara, Naomi Alderman capta toda a maldade que pode causar alguém com poder após anos de ressentimento, e através da “Mãe Eva” Allie, ela mostra o quanto as pessoas são previsíveis e influenciáveis a seguir novos credos ou religiões, desde que lhes ofereçam aquilo que elas desejam ou necessitem, desde que lhes digam o que querem ouvir. É também nessa crítica ao oportunismo religioso que esta obra convence, e não é por acaso que alcançou o seu estatuto.

No fim, fica a sensação que Naomi Alderman nos quis dizer que, se as mulheres fossem fisicamente mais fortes, não seriam diferentes dos homens, mas principalmente que quem se encontra em posições de poder tende a deixar-se manipular por ele, desenvolvendo grandes níveis de ostentação e de autoridade, utilizando a frieza, a firmeza e a crueldade para fazer os mais fracos… continuarem a ser os mais fracos. Com uma bonita edição repleta de ilustrações de falsos artefactos e outras surpresas, O Poder é uma leitura imprescindível para a compreensão das sociedades e da evolução dos tempos.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Publicado em 26 Setembro 2018

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